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Paradoxos da vida corporativa

Os paradoxos da vida corporativa estão ao nosso redor a todo momento, mas imersos na dinâmica do dia a dia em que vivemos não nos atentamos a eles e nem ao quanto minam de nós e, das organizações como um todo, o poder evolutivo, produtivo e criativo.

Certa vez, li um artigo do Prof. Humberto Mariotti em que ele citava Edgar Morin – antropólogo, sociólogo e filósofo francês, pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique):

“…Morin observa que qualquer sociedade humana é ao mesmo tempo complementar (isto é, cooperativa) e antagônica (inclui rivalidades). Nossas sociedades são comunidades de cooperação: as pessoas se ajudam mutuamente, colaboram, associam-se. As empresas fazem parcerias, joint ventures, consórcios. Ao mesmo tempo, elas são competitivas: as pessoas muitas vezes são rivais, as empresas competem no mercado…”

Longe de ser esta uma questão meramente filosófica, a realidade da permanente convivência com o paradoxo “cooperação/competição” nos lança enormes desafios diários em nossa vida profissional.

Chegamos a ter a impressão de que de nada valem tantos investimentos em treinamentos e workshops sobre o trabalho cooperativo, pois colocar em prática lições como escuta ativa, alteridade, empatia, perseverança na condução dos projetos… parece algo sobre-humano.

Afinal, como manter uma atitude consciente e de elevado nível de profissionalismo quando temos que, por exemplo: conversar com determinado colega de trabalho que apresenta comportamento agressivo ou faz comentários maldosos; dar à chefe feedback sobre o comportamento dela; dar um parecer desfavorável sobre o desempenho de um subordinado?

Da justiça a tirania

Essas são questões corriqueiras do mundo corporativo e mobilizam muito nossas emoções, abalando nossos conceitos internos sobre cooperação e competitividade. Você quer cooperar com seu colega, sendo sincero a respeito dos resultados que você percebe sobre o jeito dele de ser, mas ele interpreta que você está querendo lhe “puxar o tapete”. Animado com a implantação do sistema de avaliação 360 graus, você tem uma conversa franca com o chefe, mas sai da sala dele com a sensação de que acabou de “queimar seu filme”. De olho na qualidade necessária a todo o processo produtivo, você acredita estar sendo justo na exigência de altos padrões para manter a empresa competitiva no mercado, mas descobre que passou a ser visto quase como um tirano.

Passo simples e essencial para mudança

Tudo isso é complexo e o mais prudente é não acreditarmos em soluções simplistas para esses tipos de problema, mas há um bom primeiro passo, relativamente simples e muito prático que podemos dar desde já, para semearmos o que é considerado na atualidade o clima mais propício e favorável para um ambiente harmonioso e produtivo – o clima da confiança: aplicar o chamado “Três Crivos de Sócrates”. (*)

Certa feita, um homem esbaforido achegou-se a Sócrates e sussurrou-lhe aos ouvidos:

― Escuta, na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular…

― Espera! – ajuntou o sábio prudente – Já passaste o que me vais dizer pelos três crivos?

―Três crivos?! – perguntou o visitante, espantado.

― Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza, quanto àquilo que pretendes comunicar?

― Bem, ponderou o interlocutor, assegurar mesmo, não posso… Mas ouvi dizer e… então…

― Exato! Decerto peneirastes o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que me queres contar?

Hesitando, o homem replicou:

― Isso não!… Muito pelo contrário…

― Ah! – tornou o sábio – Então recorramos ao terceiro crivo: o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige.

― Útil?!… – aduziu o visitante ainda agitado.

― Útil não é…

― Bem – rematou o filósofo num sorriso – Se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos sem edificações para nós…

Que passemos a usar esses três crivos de Sócrates em nossa vida, pois muito provavelmente teremos mais consciência e sabedoria para lidar com estes dois aspectos tão fundamentais e indispensáveis do mundo corporativo: a cooperação e a competição.

Participe da discussão

  1. Muitas vezes no calor dos acontecimentos não nos damos conta do que realmente é essencial, apegando-nos sempre ao lado obscuro da coisa… também as vezes o que é algo grave pra determinada pessoa, não é para a outra. Acho que o bom senso sempre é o melhor caminho, pera tê-lo é preciso filtrar as informações e extrair o que é verdadeiro, bom e útil. Ótimo exercício esse!

  2. No momento que estamos vivenciando o mercado “mundo” corporativo, não consigo imaginar o sucesso da instituição Engenharia EP em um ambiente sem cooperação e a competição.
    Seguindo a risca os três crivos sugeridos por Sócrates: Verdade, Bondade e Utilidade, isso em todos os processos da organização.

  3. A relação filosófica no comportamento da sociedade humana e as corporações quanto a cooperação e competição faz todo sentido, pois a essência de toda corporação é formada por pessoas, que por sua vez possuem princípios, objetivos e reações individuais, onde ocorrem grande parte dos conflitos, quando a Competitividade ocorre no interior da Empresa se tornando muitas vezes Rivalidade entre setores e/ou pessoas.
    O desafio é unir em forma de “Comunidade”(relacionando a sociedade humana), os setores/departamentos afim de trabalharem com o objetivo/metas em COMUM como Cooperação (Time, Equipe), deixando a Competitividade saudável para o Mercado.
    As vezes confunde-se a competitividade interna com “produção”, criando uma rivalidade que muitas vezes deixa o objetivo essencial de lado, como por exemplo a QUALIDADE e a COOPERAÇÃO.
    Quanto aos “Três Crivos de Sócrates” é um exercício relevante não só para vida corporativa mas também para a vida em sociedade.
    Grande parte da rivalidade no sentido pejorativo, inicia-se muitas vezes por uma informação incerta, que não é boa e nem útil, e que na maioria das vezes recebemos da pessoa de maior afinidade.

  4. Na vida Profissional, precisamos reaprender exercitar a mansidão, sabedoria, o discernimento. Pessoas não são robôs e precisam de atenção, respeito, motivação. Saiba ouvir seu time e diga olhando nos olhos de todos com sinceridade” Se vocês estão aqui, saibam o quanto são importantes para essa organização”. Para chegarmos “lá”, precisamos do talento de cada um, quem chegar primeiro estenda a mão para aquele que hoje estiver cansado, amanhã poderá ser você o mais ofegante.

  5. TER OPINIÕES OPOSTAS EXPÕE PALAVRAS QUE APESAR DE POSSUIREM SIGNIFICADOS DIFERENTES ESTÃO RELACIONADOS NO MESMO CONTEXTO.
    NO MUNDO CORPORATIVO ÀS VEZES O SILÊNCIO É O MELHOR DISCURSO VISTO QUE TODOS TEMOS O MESMO IDEAL.

  6. Lendo o assunto “cooperação e a competição” varias situações vieram em minha mente, mais voltadas a “competição, são casos que acontecem diariamente e nem sempre conseguimos lidar. Por conta da preocupação em produzir, fazer com que tudo caminhe da maneira correta ou até pelo receio de gerar conflito, acabamos por não analisar da maneira correta ou não dar a atenção devida, com isso pequenas coisas vão se tornando maiores e com o tempo podemos perder o controle e a confiança de superiores e subordinados.

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